#48 a cena.
- ou slow motion -
(imagem retirada do Pinterest)
mergulhar num dos teus filmes favoritos me cairia bem neste momento. quem sabe, não com as costas no chão, não na grama sintética patética que me fere o couro cabeludo e os pelos do braço, e os pelos da perna que crescem pontudos e pretos, e o calcanhar ossudo e ferido por um par de patins marrons.
dessa vez não estaríamos em par e tudo seria preto e branco. já sei, combinaria com meu rosto de baixo contraste, com os cantos da boca caídos, os olhos fundos e as novas linhas finas na pele que passa no exato instante por aquilo que os astrólogos apontam como: o primeiro retorno de Saturno. mesmo assim, queria por muitas horas este meu rosto na sua tela, quem sabe recordaria como eu adorava dilatar os acontecimentos para ter mais tempo segurando tua nuca.
ao fundo, um som. canção esta que deixaria a cena repleta de sol. não minha voz rouca, não tua voz limpa como a de um locutor, não os nossos sotaques que são tão gêmeos a ponto de nem se entenderem mais, digo, que não se reconhecem mais. não o trecho de tymps - why did i kiss him so hard late last friday night? and keep on letting him change all my plans1 - não a oração de São Miguel Arcanjo feito em download direto do Youtube e narrada por uma loira desconhecida. uma loira no seu ouvido, como prefere.
um instrumental, está feito! de inicio aquele velho violão agitado, depois os acordes ficariam lentos e abafados. em slow motion meu vestido desbotado que, nesta película em específica, ficaria cinza mesmo que rosa na real. ele seria outro caso houvesse o vento que sempre acorda as folhas secas, as sementes que voam, as lágrimas tão faceiras que ficam belas contra a luz da tarde.
me sentaria no bar sozinha, no bar que se diz Refugio. tudo bem se eu não conhecer os outros personagens, tudo bem ser tão invisível, só me interessaria estar com os cotovelos na velha mesa de madeira encardida, e com a gramática italiana repousando no colo. nem me dou o trabalho de abrir, pois só você seria capaz de filmar meu dedo indicador marcando a página onde há o maior número de palavras com a Letra C, nesta língua que passei a adotar e adorar depois que perdi a tua para sempre.
nada disso, só uma figurante que cumpre um tempo de tela necessária para o desenvolvimento dos personagens principais. uma passagem rápida pelo teu filme favorito me cairia bem, sem que precisasse estar no roteiro a cena em que nos despedimos, quando você descobre o furto que cometi no quadro de Antonio Bandeira para te dar de presente de aniversário. a árvore, a obra óleo sobre tela. você desce do mototaxi vestido de branco, a calça suja de graxa, os cabelos amassados, o cheiro de suor de tantas cabeças que passaram pelo mesmo capacete. olha para mim, com os olhos bem pequenos, sem olhar no olho, jeito de quem nunca soube o que fazer quando há uma moça chorando na sua frente. você desce, de cabeça baixa, e diz a única palavra que julga ser feita, perfeita para alguém que pega as coisas dos outros assim, sem remorço, sem lei. e diz:
C O R T A.
por fim, ir caminhando por um longo, longo período, para longe, longe de mim, na noite de lua minguante e em slow motion: essa é minha cena de filme favorita em preto e branco.
olá, amores. voltei.
primeiramente, quero desejar a todas e todos um feliz 2026! espero que já esteja sendo um ano lindo para vocês, assim como está sendo por aqui. sei que já estamos em abril, mas pegando o gancho de um trecho do texto, na astrologia o ano só começa mesmo com a entrada do sol no signo de Áries, o que acabou de acontecer, mais precisamente dia 20 de março. então, vendo por este ponto de vista, não estamos nada atrasados para realizar nossos planos, caso por alguma ventura você não tenha conseguido executar nada daquilo que se prometeu nas suas resoluções de ano novo.
segundo, precisei deste tempo por alguns motivos e aqui vão os três principais:
estava estudando para realizar umas provas
estava estudando para entender melhor este novo algoritmo do substack, já que quando cheguei aqui era tudo mato e a coisa mudou demais - e posso dizer que AMO estas mudanças e as evoluções que a plataforma realizou - precisei refletir sobre o meu nicho, sobre o que eu queria produzir para aqui e como eu poderia deixar este espaço cada vez substancial.
estava revisando uns contos que quero investir numa coletânea e, pela primeira vez, publicar algo físico só meu - afinal, já são anos escrevendo só virtualmente, o que eu AMO também, mas não posso esquecer que este sempre será meu sonho primordial e sempre rola aquele medo de do nada esta ou outras redes sociais simplesmente pararem de existir.
além do mais, acabei ganhando alguns novos inscritos - muito fruto desta mudança que a plataforma realizou, sobretudo ao acrescentar a possibilidade dos "notes” (pequenas notas que podemos publicar diariamente e se parece muito com o twitter) acaba que nosso trabalho chega em mais pessoas ao nos utilizarmos deste recurso e foi o que aconteceu comigo.
então, se você é novo ou nova por aqui, seja muito bem vindos e bem vindas. é sempre gratificante demais ter pessoas interessadas em ler o que escrevo. ❤︎ ah, lembrando que você pode, além de receber meus textos na sua caixa de e-mail, tê-los também chegando em seu celular:
assim terá também acesso aos meus Notes (eu gosto de dizer que é o twitter da Jéssina crescida). é uma boa iniciativa caso uma das suas resoluções de ano novo seja ler mais do que assistir a vídeos curtos - o que eu AMO também, mas que infelizmente destrói um pouco o nosso poder de concentração e atenção. nas próximas edições, indicarei para vocês newsletters que eu adoro acompanhar por aqui, já estou fazendo a curadoria, mas enquanto isso, inaugure o seu aplicativo Substack lendo as minhas edições passadas.
bom, sem mais delongas, vamos para o segundo momento da minha news: Falar de música.
como uma boa gen z, eu passei - e passo - MUITO tempo da minha vida ouvindo música, passeando por novos cantores no meu Spotify, novos artistas, novos gêneros e por isso, nestes 28 anos, acabei adquirindo um repertório considerável também nesta linguagem artística. então, eu amo ouvir coisas novas, eu amo descobrir músicas, amo pensar sobre música, falar sobre música e pesquisar sobre música, como diz a palavra que saturaram nos últimos tempos: é o meu hiperfoco desde sempre.
por vezes a música também acompanha meu processo criativo dos textos ficcionais, para buscar um ritmo interessante na narrativa. enfim, gosto sempre de ressaltar: como pode belas letras acompanhadas de belas melodias? isso pra mim é uma das coisas mais geniais que o ser humano já concebeu, além de um ótimo regulador emocional. por estes e outros motivos, reservo um espaço na minha newsletter para escrever um pouco sobre algum cd que me marcou.
e hoje quero falar de:
Morcheeba 💿
estou nessas de ouvir cd’s do gênero trip hop, que é um gênero originado na Inglaterra dos anos 90 e mistura elementos do hip hop com eletrônicos e um pouco de jazz, que faz o som ser muito interessante e meio psicodélico. inclusive algumas cenas do texto de hoje me veio enquanto eu ouvia este cd do morcheeba, justamente porque me remete a coisas cinematográficas, faz eu me sentir num filme, em cenas slow motion.
eu automaticamente me transformo na minha versão melancólica olhando a janela de madrugada sozinha e em silêncio pensando no texto perfeito. as características que mais amo neste gênero são os samples de vinil, com aquele chiadinho analógico e charmoso, além das linhas de baixo profundas e vocais mais doces e femininos, que nos coloca numa atmosfera etérea.
Big Calm é uma boa escolha caso você queira conhecer o trip hop, a voz da Skye Edwards é o perfeito exemplo do que eu falei sobre nos levar para uma atmosfera etérea, outro plano, é um negócio surreal, é como fazer skin care nos ouvidos - mais ou menos a mesma sensação que tenho quando escuto artistas como Sade, que já falei aqui em alguma edição.
sobre a banda: Mocheeba é britânica nascida em Londres por volta de 1995, um trio formado pelos irmãos Paul e Ross Godfrey junto com a vocalista Skye Edwards. O trabalho que deu início ao trio foi o Who can you trust? é nele que tem a música “Enjoy the wait”, um grande sucesso deles e uma das minhas favoritas, embora o Big Calm seja o meu cd favorito deles justamente por ser menos eletrônico e mais etéreo. Um fato é que este encontro dos deuses teve um rompimento em 2003, quando Skye Edwards deixou o trio por conta de desentendimentos pessoais e musicais com os irmãos, mas não sei de mais detalhes sobre esta fofoca, o que suponho é que uma hora ou outra tanto talento assim junto acaba dando um choque mesmo. Houve até uns trabalho, outros cd’s em que ela foi substituída, mas nem me animei em ouvir, porque para mim a alma do negócio é a voz dela mesmo. E para a nossa alegria ela retorna em 2010, inclusive eles tem um trabalho do ano passado bem interessante, o cd Escape the chaos, que eu curti bastante também e a capa é uma foto dela bem fada. - sério, sou muito fã dela.
Para finalizar, aqui vai um vídeo deles farmando aura ao vivo cantando uma das minhas músicas favoritas do cd em questão:
é isso, gente. espero que tenham gostado, vejo vocês nas próximas edições. caso queira comentar a edição #48, fazer sugestões ou indicar músicas que você gostaria de ver por aqui:
um abraço,
com carinho,
Jéssina.
Referências:
https://www-britannica-com.translate.goog/art/trip-hop
https://www.antena1.com.br/noticias/tags/morcheeba
música da Fiona Apple.




